Sábado, Outubro 04, 2008
Bandeira ao Vento V2
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Sábado, Maio 24, 2008
Da capo al fine
Este blogue pára aqui. Existem razões, algumas objectivas, outras subjectivas, algumas até irrazoáveis; não importa. Vestirei o roupão que terei de comprar, sentar-me-ei no velho cadeirão de couro que não tenho e fumarei o meu cachimbo invisível, pensando em como a vida é uma coisa engraçada, etc.
Sentirei saudades. As caixas de comentários estão fechadas, mas conhecem o meu endereço de e-mail. Sei que voltarei a escrever algures, apenas não sei onde ou quando; até lá, um abraço.
Bandeira
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Sexta-feira, Maio 23, 2008
O Don Giovanni da Madragoa
A sua filosofia era: «Levar a mulher de um imbecil ao adultério não é pecado, mas justiça!», e andava por aí conquistando as mulheres de pobres e ricos, conhecidos e desconhecidos, sem fazer distinção, porque «todos os maridos são, por definição, imbecis». Os vizinhos sabiam que ele havia desonrado mais uma dama quando, de madrugada, o ouviam tocar Mozart no seu piano; não demorou muito antes que o dissessem «o Don Giovanni da Madragoa».
Um dia, por vaidade, aceitou um discípulo. Era tudo o que a sua mulher esperava para fazer justiça.
Don Giovanni da Madragoa entrou no seu quarto, viu Elvira no tálamo com o discípulo e, completamente fora de si, juntou-se a eles.
Don Giovanni da Madragoa está no Inferno; o discípulo tornou-se existencialista.
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Quinta-feira, Maio 22, 2008
Dia Santo
Gosto dos feriados porque as outras pessoas não trabalham e eu posso alimentar pequenos diálogos engraçados como:
«Prainha?»
«Julgas que eu tenho a tua vida? Para mim não há feriados, eu trabalho 365 dias por ano.»
«Bom, ent...»
«Mas ok, vamos lá.»
Claro, hoje não resultaria porque o tempo está bom é para escrever postes. Mesmo sem prainha, porém, devemos agradecer ao senhor José Feriado aquele momento glorioso em que, no seu gabinete de trabalho assírio, atirou o estilete ao chão e mandou os empregados para a praia fluvial gozar o sol, inventando assim o dia que ainda hoje traz o seu nome.
Leio numa revista que foi descoberto um sistema solar semelhante ao nosso. Planetas como os nossos. Um sol como o nosso. Provavelmente até um deus único como o nosso, o que provaria definitivamente a minha teoria de que o Universo é assim uma espécie de espelho e que apenas por isso nos parece tão grande (um truque que os decoradores conhecem muito bem). Mas adiante, que nos dias feriados toda a especulação metafísica está sujeita a multa.
A morte de uma lacuna: atirei-me finalmente a O Castelo, de Kafka, mas pu-lo de lado antes de acabar (hahaha percebeu?). Há algo de heróico em ler um livro sabendo que não o vamos terminar jamais. Ainda que Kafka não houvesse optado por morrer entretanto, parece que já tinha decidido deixar o livro em suspensão perpétua, como a harmonia em Tristão e Isolda ou as obras do palácio da Ajuda. Sonharei amiúde com os destinos de K. e Frieda nas minhas poucas horas de sónia, quero dizer, de não-insónia.
Já o Exit Ghost, do Philip Roth, li-o até ao fim. Depois de hérnias, apendicites, artérias entupidas e outras maleitas graves que não quero aqui recordar para não arruinar o meu gaio estado de espírito matinal, o herói, Nathan Zuckerman, sofre agora de incontinência e impotência resultantes de uma prostatectomia, para além de falhas de memória que varrem por completo episódios inteiros da sua existência – ah, a não ser que isso não passe de um truque do manipulador Kliman para conseguir aquilo que pretende. Tudo somado, Exit Ghost não é das coisas mais sólidas que se pode ler de Roth (escrevi essa frase apenas porque achei que daria uma certa dignidade crítica ao poste, mas não faço ideia se é verdade ou não).
De cada vez que se me põe a (muito recorrente) questão de ter que comprar mais estantes, apetece-me vender a livralhada toda a um alfarrabista ou oferecê-la à biblioteca de uma aldeia remota com sessenta habitantes idosos – os jovens não saberiam apreciar Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos, do Giordano Bruno, ou A Visão de Deus, do Nicolau de Cusa. Conservaria, é claro, os livros de consulta, como as obras completas do Marquês de Sade. Eu nunca quis ter móveis, sofás, frigoríficos, essas coisas que nos prendem a uma casa, a casa a uma rua, a rua a uma cidade; e a dada altura, convenhamos, os livros tornam-se mobília.
Mas trava-me sempre a mesma incerteza: se me desfizer da minha biblioteca, como saberei que livros li?
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Famílias funcionais
A propósito de Jung: o seu avô materno era um teólogo e um visionário que apreciava uma boa conversa com os mortos, embora não se saiba ao certo de que falavam. Ele dedicou a sua vida ao estudo do hebraico, convencido que essa era a língua falada no Céu, e quando redigia sermões colocava a filha (futura mãe de Jung) atrás do seu cadeirão. A missão da menina: não permitir que o diabo espreitasse por cima do ombro do pai.
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Terça-feira, Maio 20, 2008
Consequências
Numa viagem que empreendem juntos aos Estados Unidos, Jung relata ao seu ainda mentor e analista, Sigmund Freud, um sonho recente:
«Encontrava-me no segundo e último andar de uma casa que não conhecia, deleitando-me com o mobiliário Rococó e os magníficos quadros que pendiam das paredes. Pensava: “Nada mau, nada mau, que excelente casa é a minha”. Desci ao piso térreo para o apreciar também, mas tudo aqui, incluindo a mobília, tinha um ar medieval e as salas estavam imersas em penumbra
Jung quer ver na casa uma representação da sua própria psique, assim como a confirmação da existência de um inconsciente colectivo povoado por arquétipos; mas não o diz a Freud que, um pouco nervoso, insiste em perguntar-lhe a quem pertencem os crânios.
É agora claro que os dois homens suspeitam um do outro.
Jung aproveita o facto de estar ainda de costas para o seu interlocutor para mentir descaradamente: «Julgo que os crânios pertencem à minha mulher e à minha cunhada». O professor de Viena recosta-se no cadeirão e permite que os músculos relaxem, satisfeito por o desejo de morte do colega e discípulo não ser dirigido contra si.
Alguns dias mais tarde, Freud sonhará tranquilamente que retira uma pequena pistola de um bolsinho do colete e dispara à queima-roupa contra as costas de Carl Gustav Jung; nesse preciso instante, a mulher e a cunhada do psiquiatra suíço acordarão em sobressalto com um terrível peso no peito.
Estes acontecimentos terão consequências nas psiques de todos nós.
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Pessoa no Parque
O céu estava enevoado como uma eleição no Zimbabwe e eu decidi apanhar o metro. Nunca tinha entrado nessa bela e algo misteriosa estação do Parque. Nos trajectos pedonais há citações de filósofos e poetas; vi-as de Heraclito, Nietzsche, Pessoa. Acredito que a maioria dos passageiros seja indiferente a Heraclito ou Nietzsche (que importa se tudo flui ou se Deus morreu?). Já Pessoa, claro, toda a gente o conhece. Ainda que assim não fosse, a citação que li – «Dói-me a cabeça e o Universo» – resume muito bem o homem.
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Mundanidades
É uma coisa boa que o meu dentista tenha jazz a tocar no seu gabinete: sempre contraria a ansiedade causada pelo programa da manhã no televisor da salinha de espera. Eu não lhe disse isso, é claro. A verdade é uma jóia valiosa que não devemos arriscar usar em ocasiões mundanas.
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Sexta-feira, Maio 16, 2008
Realidade é
O elenco de Feios, Porcos e Maus num drama psicológico de Woody Allen.
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O Mandarim
Já imaginou? Eu com uns pós de ansiedade porque estou há dois ou três dias sem postar, e pum – um sujeito que não conheço de lado nenhum cai duro na 5ª Avenida.
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Quinta-feira, Maio 15, 2008
Bandeira de papel
Segunda-feira, Maio 12, 2008
As Vidas dos Filósofos: Diógenes de Sinope
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Da Felicidade
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Great Expectations
«Ok. Tipo o quê? Uma capa?
«Não, uma capa, não. Um baú. Como o do Pessoa.»
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Sábado, Maio 10, 2008
Decerto, Hegel colocou a questão do ser das consciências
Quinta-feira, Maio 08, 2008
O Cão no Alpendre
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Quarta-feira, Maio 07, 2008
Ofélia Metafísica
Mas o dia chegou em que, por falta de verba, os pássaros foram despedidos. Sem hora para entrar nem sair, eles começaram a vagabundear pelo bairro, sujando as roupas nos estendais e pipilando noite e dia sem parar.
Ofélia não soube mais o que pensar da existência, do universo e da vida.
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Bandeira de papel
Terça-feira, Maio 06, 2008
Epifania
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Segunda-feira, Maio 05, 2008
Oh, ok
É certo que nunca cheguei a vias de facto, mas isso é porque os bombeiros não autorizam. Dizem que não tenho condições de segurança.
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Pergunta
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Domingo, Maio 04, 2008
Bandeira de papel
Retrato do Artista enquanto Jovem Indolente
Passei o corpinho por água fria (ahahah mentira, era quente, mas achei que escrever isso me daria um ar destemido) e dirigi-me ao baú do e-mail atrasado. Ainda respondi a umas estudantes universitárias que querem fazer o meu «perfil» – podem talvez começar por dizer que eu respondo aos e-mails num ritmo, eeeh, pausado – e a mais duas ou três missivas electrónicas que tratavam de questões imperiosamente inadiáveis desde o ano passado. Foi então que senti uma vontade irreprimível de descobrir o caminho marítimo para o Quebeque, passando pelo café e pela banca dos jornais, e determinei continuar o trabalho epistolar mais tarde nesse dia. Não aconteceu. Talvez hoje, mas estou com tanto que fazer, tanto que fazer.
Uma amiga que sabe como eu sou relapso com a correspondência enviou-me um e-mail contendo apenas um ponto de interrogação. Bolas, como ela é esperta.
Os canadianos em geral, e em particular os do Quebeque, não sabem falar francês.
O uísque canadiano (argh) grafa-se «whiskey», como aliás o americano e o irlandês. Até agora, só o uísque escocês gozava do privilégio de ser escrito sem o e, assim: «whisky». Digo até agora, porque um uísque japonês foi há dias considerado o melhor do mundo, e eles já admitiram que o copiaram descaradamente dos escoceses no início do século passado.
A principal diferença entre os uísques escocês e irlandês: o escocês fuma durante o processo de destilação.
Acho que foi o iluminado do Pascal quem primeiro disse que o coração tem razões que a razão desconhece, o que não deixa de ser extraordinário vindo de alguém com nome de linguagem de programação.
Agora perdi-me.
Ah! Sim.
Com todas as vaquinhas, ovelhas, flores, formigas, cobras repelentes e natureza em geral à sua espera lá fora para o atacar, o meu filho mais novo estava há quase dois dias deitado no chão a ver TV. O livro de citações edificantes não produziu qualquer efeito, nem mesmo quando o atingiu na cabeça; restava-me partir para a violência. Inspirando-se num episódio do Dr. House (que para azar dele eu também vi), ele diz agora que não se pode pôr de pé porque tem «um rim pendurado» por causa das cócegas que lhe fiz.
Escudado nas diferenças ontológicas entre televisor e monitor de PC, pôs-se a jogar SIMS. Tinha pedido um bolo numa esplanada virtual, mas uma mulher que ele diz não saber quem seja levou-lhe a guloseima e sentou-se noutra mesa a comê-la. Ante a indignação do rapaz, tive que lhe explicar que é isso que elas fazem – roubam-nos bolos nas esplanadas. É certo que raras vezes os roubam inteiros. Ele apanhou uma das tesas.
Contra o meu conselho, o rapazito está neste momento a tentar roubar o bolo de volta. Vai ser um massacre, mas pode ser que ele tire algum ensinamento disso.
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Sábado, Maio 03, 2008
Segismundo e Bradamundo
Séculos antes de Gladstone e Disraeli sonharem com prazer que enfiavam as cabeças duras um do outro em taças de ponche, o cavaleiro liberal Segismundo e o cavaleiro conservador Bradamundo, seus mentores, pelejaram pela coroa de um pequeno reino muito próspero.Segismundo parecia haver ganho terreno quando lançou a ideia, aliás mais tarde retomada por Gladstone, de que o liberalismo supõe confiança nas pessoas temperada com prudência, ao passo que o conservadorismo se alimenta de desconfiança nas pessoas temperada com medo.
Em tal ouvindo, Bradamundo atemorizou-se e cortou a cabeça ao adversário, o qual se calou.
Os juízes da lide não precisaram de muito tempo para declarar o golpe ilegal, e os habitantes do reino, que acima de tudo eram justos, antes quiseram coroar a cabeça sem vida do pretendente caído que oferecer o trono a um destemperado.
Na era vitoriana, o pequeno reino prosperava ainda; e os seus habitantes, dizia-se, continuavam justos. Quando algum forasteiro lhes perguntava se estavam satisfeitos com o seu rei, diziam: Segismundo, o Liberal? Não reina nem bem, nem mal.
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Sexta-feira, Maio 02, 2008
No simulacro de Juízo Final
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Quinta-feira, Maio 01, 2008
Rodrigues
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Se eu usasse etiquetas: Bebés, Buxtehude, gatos, maternidade, Nikon, sem palavras
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Quarta-feira, Abril 30, 2008
Como comportar-se num concerto
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Triplo salto
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Terça-feira, Abril 29, 2008
Lede, oh presumidos, e envergonhai-vos
Eu tinha-me metido com o Lamy pouco tempo antes, precisamente nas páginas do DL, por causa daquele azar irritante de os carros lhe rebentarem nas mãos com a meta à distância de uma pedrada. Não sei onde anda esse boneco, mas lembro-me que tinha desenhado o nosso piloto de F1 deitado no sofá do psicanalista. Estava um Freud sentado atrás dele, tomando notas, e o Lamy dizia: «já em pequenino, quando íamos ao Porto, o carro avariava-se sempre em Vila Nova de Gaia».
E ele, uns tempos depois, desarma-me com aquilo.
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Goethe, Mozart e Elvira Madigan assistiam à TV por cabo quando de repente
Conheço bem os critérios que os publicitários utilizam para escolher bandas sonoras, mas não serei eu quem trará à profana luz do dia segredos profissionais escondidos há séculos nessas caves esconsas e húmidas. O estafeta que atira a moeda ao ar escolheu desta vez o andante do Concerto para Piano nº 21, de Mozart, para o novo anúncio de TV da «ZON TV Cabo». Amadeus não era assim honrado desde que alguns anos atrás uma marca de papel higiénico deitou mão do seu Et Incarnatus Est, da Missa em Dó menor, para um comercial de rádio e TV.
Mas o supracitado andante tem já uma história recente agitada. Ele foi utilizado, no final dos anos 60, por um realizador sueco, Bo Widerberg (nessa época a Suécia tinha dois realizadores), no seu filme Elvira Madigan. Por um desses fenómenos de contaminação tão frequentes na sociedade pós-moderna, o nome surge hoje impresso em quase todas as gravações do Concerto para Piano nº 21.
O filme, que eu apenas tive oportunidade de ver há poucos anos (no final dos anos 60 eu tinha um interesse limitado em cinema sueco), baseava-se num caso verdadeiro de amor que tivera lugar um século atrás e que acabara de forma trágica. Um tenente de cavalaria sueco – são sempre tenentes e sempre de cavalaria, embora raramente suecos – e uma funâmbula dinamarquesa, Elvira Madigan, tomaram-se de paixão incontrolável. O oficial de 35 anos, Sixten Sparre, abandonou mulher e filhos e desertou do exército para fugir com a equilibrista, de apenas 21. Perseguidos e sem dinheiro, tomaram uma decisão de acordo com o espírito que Goethe inaugurara um século antes com o seu Werther. Após um piquenique na floresta em que gastaram as últimas moedas, o tenente Sparre disparou contra Elvira e depois contra si mesmo com o revólver do exército. Como é de lei em ocasiões do género, os corpos estavam juntinhos quando os encontraram.
Sixten Sparre e Elvira Madigan morreram em 1889. Mozart escreveu o Concerto para Piano nº 21 em 1785, onze anos após a publicação de Werther.
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Veja aqui algumas cenas do filme. Não consigo imaginar o que passou pela cabeça de quem fez o clip para lhe enfiar essa banda sonora. Nem sei o que é, soa a banda americana melosa de há umas décadas, tipo Boston. É como assistir a E Tudo o Vento Levou ao som dos Beach Boys.
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Correntes
Aqui e aqui distinguem-me, e eu, fingindo-me humilde mas na verdade quase rebentando de volúpia como uma boa digerindo um elefante, agradeço. Baixo ainda o pescoço para que nele me pendurem a corrente que ganhei aqui e a que ainda devo ao Casanova. Pode demorar um pouco, mas tereis notícias minhas.
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Domingo, Abril 27, 2008
Operar é humano
O paciente acordou na madrugada seguinte com o ventre rígido, dores agudas e vontade de dançar slow. Tiraram radiografias, entraram em pânico e ligaram para o telemóvel do cirurgião. Ele não demorou dez minutos. Tinha aspecto de quem passara a noite a vender as mágoas aos pombos no relvado do hospital. Olhou a radiografia e a queixada por barbear tombou-lhe no peito. Esquecera um velho single de 45 rotações no interior do paciente. «A nossa música», gemeu chorando, e encostou o ouvido à barriguinha dele.
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Nanoconto de horror
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Bandeira de papel
Sábado, Abril 26, 2008
Isto é que eu achava bem que a mocidade soubesse
2 – Quantos quilos tinha Mário Soares quando combateu o totalitarismo?
3 – Quantos anos tinha Paulo Portas quando combateu o sarampo?
4 – Qual a alcunha do carteirista das 12:30 na carreira do eléctrico 28?
5 – Quantos deputados têm os restaurantes de S. Bento à hora de almoço?
6 – Quem foi o primeiro presidente da junta?
7 – Com quantos paus se faz uma canoa?
8 – Que acontece a uma canoa se algum barco a abalroa?
9 – Etc.
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Ninguém espera a Inquisição Indiana
Não me importo que a minha vizinha de frente deite cartas, o de baixo seja vidente e o de cima economista. Ok, admito que o economista me perturba um bocadinho. Enfim: cada um acredita no que quer, olhe a psicanálise lacaniana e a língua basca. Desde que não me atirem coisas sem cabeça para cima dos lençóis lavados, por mim tudo bem.
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Not Toulouse
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Quinta-feira, Abril 24, 2008
Inevitável
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Quarta-feira, Abril 23, 2008
Dois Dias na Vida de Francis de Atenas
Esquecera-se do que queria escrever.
Voltou as bolas de golfe na direcção de Lurdes. Ela estava a dormir ininterruptamente desde o baile de máscaras de duas noites atrás, quando o forçara a levá-la, fantasiada de Eva, ao palacete de Rodrigues, o Trácio. Francis suou ao lembrar-se do trabalho que haviam tido para lhe vestir a folha de figueira sem a rasgar. A máscara fora um sucesso, claro, e ele tivera que arrancar a mulher das mãos e do resto do corpo de Adão, isto é, de Fred de Mégara, que se afadigava a ensinar a Eva o que o Criador não teria querido que ela de forma alguma aprendesse, muito menos durante um baile de máscaras e com um copo de champanhe na mão. E agora ali estava Lurdes, ressonando como uma gaita de foles tocada por um inca aflito para ir à casa de banho, e impedindo o marido de se lembrar das ideias para a sua Crónica do que Sucedeu, etc.
Entorpecido pela privação do sono, Francis deitou-se na cama de dossel e, fechando os olhos, tentou recordar-se da frase que inventara sobre bolas de golfe.
Se Deus existe, porque permite a coincidência? Não sei, mas no preciso momento em que Francis fechou os olhos, Lurdes acordou. Ela conferiu a data e a hora no relógio electrónico e fungou. Depois olhou para a janela aberta e, por fim, para o marido, que dormia já profundamente. Então abanou-o com força, meio zangada por ele estar a dormir havia já dois dias e, ainda por cima, ressonando daquela maneira.
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Terça-feira, Abril 22, 2008
A trilha
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Singelos pensamentos de um insone
O insone pensa muito; logo, o insone existe muito.
Pegue um livro e o sono vem. Largue o livro e o sono foge.
(O motejo acima aplica-se sobretudo à lírica de Camões, em particular quando vertida para romeno.)
A insónia é uma amostra grátis de eternidade.
O insone é um vivo compulsivo.
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Este insone pede desculpa pela pobreza e falta de profundidade destes singelos pensamentos. Eles são a prova de que tentar usar o cérebro durante uma insónia é como tentar guiar máquinas agrícolas depois de engolir um frasco de soníferos: nunca se consegue encontrar uma para ver no que dá.
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Dois centímetros vírgula sete
Senti-me muito homem.
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Segunda-feira, Abril 21, 2008
Bandeira de papel
Limite
As experiências que levei a cabo mostraram-me que num volume de, digamos, quatrocentas páginas, existem não mais que dez ou vinte de informação relevante, e que mesmo essas, em havendo arrojo e querer, podem ser dispensadas.
No limite, um livro pode ser condensado num título que não contenha uma única palavra.
Ultrapassado esse limite, deixam de existir garantias.
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Impulso
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Domingo, Abril 20, 2008
O assassino confesso de Guilherme de Orange
A sentença do tribunal – «indigna daquele que era suposto vingar», escreveu Motley, embora eu mantenha prudente reserva quanto ao que possa ter escrito alguém com o seu corte de cabelo – foi zelosamente cumprida perante uma assistência, se não selecta, pelo menos interessada. Em jeito de prelúdio simbólico, queimaram a mão direita do condenado com um ferro em brasa. Enterraram-lhe depois pinças até aos ossos em seis locais diferentes e, puxando-as, arrancaram quanta carne ali havia. Gérard foi então esquartejado e esventrado vivo. Os holandeses possuíam naquele tempo fama de mercadores chatos, gente obtusa sempre vestida de preto que só pensava em acumular florins e não ia a um cinema, mas tinham ideias muito precisas sobre como tornar interessante um domingo de chuva.
Um supliciado do calibre de Balthasar Gérard não aparecia todos os dias (e quantos Guilherme de Orange havia para assassinar?), pelo que os executores estavam na disposição de fazer render o arenque sem cobrar horas extraordinárias. No ponto em que o haviam estripado, porém, deu-se um pequeno incidente, aparentemente sem importância mas que os deixou à beira de um ataque de nervos: uma lasca rebelde atingiu a orelha do homem que, a camartelo, destruía a arma com que Gérard cometera o crime. Como sempre acontece quando alguém perde a face em público, ouviu-se uma gargalhada geral. Mas o gargalhar transformou-se num murmúrio de assombro no momento em que a assistência percebeu que Gérard – ou a amálgama de carne, sangue e ossos que fora Balthasar Gérard – sorria também.
Gente simples e temente a Deus, povo e verdugos tiveram medo. Apressaram-se a arrancar-lhe o coração e a atirar-lho à cara; só então a expressão de divertimento desapareceu da face do assassino confesso de Guilherme de Orange.
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Bandeira de papel
Quinta-feira, Abril 17, 2008
Not Toulouse
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Naturalmente
Se os livros de poesia são traduzidos por poetas, como se explica que as editoras não tenham o mesmo grau de exigência em relação aos livros de humor?Deviam, naturalmente, ser traduzidos por revisores oficiais de contas.
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Ervilhas com ovos
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Quarta-feira, Abril 16, 2008
Um Funâmbulo na Primavera
Horácio, o detective que cita errado
Concluído que estava o caso da mulher que enganava o marido com um anão de jardim gigante, eu não me sentia lá muito animado. Sempre fora um homem de certezas, mas agora o mundo parecia-me estranho e os anões de jardim também. Como dizia o Hamlet, «Horácio, não negues à partida uma ciência que desconheces». Fui buscar a Lisete ao bar onde ganha uns cobres como table dancer e levei-a a jantar a um pequeno restaurante da zona ribeirinha. Os preços eram acessíveis. Sabemos que a crise está para ficar quando o Filet de Canard Garni au Chocolat Amer et Pomme de Terre Rösti entra no menu de 7,5 € com direito a bebida, café, digestivo e Borda d'Água do ano em curso. O empregado era um desses dramas funambulares iminentes, ainda novo mas balançando já entre o lado da tragédia e o da comédia. A maioria acaba por cair na tragédia. Afinal, a comédia sempre exige algum talento, ao passo que para trágico todos nascemos ensinados.
A duas mesas de distância sentou-se um casalinho quase ilegalmente jovem. Os modos hesitantes denunciavam um primeiro encontro. Investigada a ementa, ele escolheu pataniscas de polvo com arroz de cenoura e grelos. Ela, filetes de linguado com arroz de cenoura e grelos. Tinham uma coisa em comum! Riram-se muito, fazendo brilhar os aparelhos, e começaram a tentar acertar com bolinhas de miolo de pão na boca um do outro. Então tiraram os auriculares dos ouvidos, deram-se as mãos e olharam-se fixamente nos olhos. O drama funambular ia para tomar nota dos pedidos e arruinar o momento, mas eu interpus-me e levei-o até ao aquário para escolher o peixe. Enquanto ele negava que em algum momento um peixe-espada pudesse ter andado a nadar por ali, os apaixonados trocaram o seu primeiro beijo. Desculpei-me dizendo que talvez o peixe-espada fosse apenas um lavagante com muito mau aspecto e regressei ao meu lugar, deixando o empregado desamparado como um personagem de romance russo. Enternecida, a Lisete ria e chorava ao mesmo tempo. Sem o saber, eu tinha marcado pontos. Talvez compensassem um pouco o rombo que eu dera no meu karma nesse dia. O certo é que me senti satisfeito como o Buda depois de transformar a água em vinho.
O casalinho saiu cedo do restaurante, provavelmente rumo ao cinema ou a um outro lugar de ambiente igualmente crepuscular onde houvesse pipocas e coca-cola. Éramos os últimos clientes na sala e, como dizia o coro naquela peça de Eurípides, «Páris e Helena não viam a hora de chegar a Tróia e tirar a roupa». Eu imaginava já a minha companhia dentro de um corpete Victoria's Secret com um par de asas e abertura fácil, e pelo toque do seu pé descalço pude perceber que ela vira os mesmos filmes que eu. O drama funambular começou a limpar as mesas e a coroá-las com as cadeiras. Paguei a conta com a nota amarrotada que arrancara da mão do marido traído. Infelizmente, ele não tivera a decência de fazer as contas antes de sofrer a apoplexia. Talvez eu devesse ter exigido o pagamento antes de lhe mostrar as fotos de jardinagem da mulher. Como é que o adivinho disse ao Júlio César? «Cuidado com o meio do mês». Apalpei os bolsos: tinha dinheiro suficiente para o simpático hotel de duas estrelas que nos sorria do passeio em frente. Saímos para a rua deserta. Através do envidraçado fosco da porta do restaurante ainda consegui ver o jeito arrebatado com que o drama funambular beijava a cozinheira, liberta já da rede que lhe prendia o longo cabelo negro de fogosa mulher mediterrânica.
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Sábado, Abril 12, 2008
Um homem acusou Almeyda de falar rebuscado
No dia aprazado, chegou à clareira deserta do bosque ainda antes da alba e esperou; mas ninguém apareceu, porque ninguém conseguira perceber o que ele dissera.
Encontraram-no semanas depois, na clareira, morto de vergonha.
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Quinta-feira, Abril 10, 2008
Bandeira de papel
Um homem recapitulava toda a sua vida
Então o momento chegou. O bem-estar, o túnel, a luz muito branca, as vozes chamando. A maca deteve-se. Mãos voaram como pássaros sobre o seu corpo inerte. Mas ele, como sempre, hesitou; e acabou tendo uma experiência de quase-morte.
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Um homem queria parar e não podia
Então chegou o domingo, o trânsito foi interrompido e ele deitou-se ao Tejo, o que o curou.
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Quarta-feira, Abril 09, 2008
História clínica
Como qualquer pessoa saudável, cresci acreditando que as conversas sobre doenças são elas mesmas uma doença, ou pelo menos um sintoma de velhice (a qual consiste, por assim dizer, numa cataplana de doenças). Mais tarde vi-me forçado a mudar de opinião, até porque a opinião vem apensa ao ponto de vista e o meu foi brutalmente deslocado para várias prateleiras abaixo daquela em que costumava estar arrumada, que era a da sadia indiferença.A verdade é que falar sobre doenças é interessante, quando se tem uma para contribuir para a discussão; terrivelmente interessante, quando se tem mais do que uma; e um vício incontrolável, quando se é o feliz detentor de patologias não inteiramente identificadas. O erro em que incorrem muitas pessoas que são doentes consiste em tentar encetar uma conversa sobre gestas patológicas com alguém que, na melhor das hipóteses, apenas esteve doente – um amador.
A diferença ontológica, tal como me foi dada a conhecer pelo meu filho mais novo, é equivalente à que existe entre um cacilheiro e a ponte Vasco da Gama. Ele explicou-me que uma pessoa está doente quando o irrita falar do que quer que padeça no momento; e que é doente quando nada o anima mais que uma boa conversa repleta de palavras terminadas em –algia e a visão de um lábio superior arreganhado em condoída solidariedade.
Ponho grandes cuidados na selecção de interlocutores. Por exemplo, jamais escolheria o meu médico. Ele aprecia uma boa conversa. Nos dias em que tenho consulta, comunica à recepcionista que estará doente o resto da manhã ou da tarde. Temas favoritos são religião (ele católico, eu várias, mas ambos desaprovamos sacrifícios humanos e o culto de Baal), literatura, assunto sobre o qual nada sabemos mas que nos diverte até às lágrimas, e
Também não discuto as minhas patologias com as meninas da farmácia. Existem limites. Elas não são doentes: trabalham com doenças, é tudo. Quando preciso de me abastecer de medicamentos, faço os impossíveis para não aludir a sintomas ou a outros assuntos sequer vagamente relacionados com a minha condição clínica. Passo o tempo em facécias e contando anedotas. Quando sinto no pescoço o bafo quente da pessoa atrás de mim na fila (provavelmente necessitada de comprar um analgésico potente para uma atroz dor de dentes que a está a levar ao limiar do crime), apresento rapidamente o receituário e o cartão Multibanco. Mas faço-o como quem cumpre uma simples formalidade, já que o motivo da visita é, naturalmente, a mais pura cortesia.
Se o plangente leitor tem uns sintomas implicantes que vai atenuando com paliativos, como bons livros, sexo ocasional e um sortido de comprimidos; se sente que o seu curriculum clínico é estranhamente parecido com o de um buraco negro; se a sua família e amigos começam a afastar-se de si a uma velocidade directamente proporcional àquela com que se aproxima deles, então vá por mim: ignore as recomendações do ministério e socialize num Centro de Saúde qualquer. Verá que sai de lá como novo. E não seja demasiado reservado em relação ao que o apoquenta. Afinal, não conhece ninguém e ninguém o conhece a si. Cultivar uma certa distância é bem, mas mais do que isso já é considerado agricultura. E agora tenho que parar de escrever. As minhas costas estão que parecem de madeira, sinto um zumbido nos ouvidos como se tivesse um berbequim a perfurar-me o céreb... mas ah, esqueça, o leitor não quer ouvir-me falar sobre isso.
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Terça-feira, Abril 08, 2008
Vã filosofia
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Uma História Policial do Universo
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Segunda-feira, Abril 07, 2008
O homem que não sabia perder
Avancei o bispo com a expressão triunfante mas piedosa de quem acaba de salvar uma alma condenando o corpo anexo aos horrores da fogueira. Tinha o clero do meu lado. Convocasse o Raimundo todas as potestades do Pandemónio e ainda assim não poderia impedir o xeque-mate em poucas jogadas. Ele bufou delicadamente, apoiou o cotovelo do braço direito no joelho e repousou o queixo no punho fechado. Eu já tinha visto isso na Birmânia. Com treino, um homem pode suportar essa posição por dias a fio. Preparei um uísque. Ele não se mexeu. Bebi o uísque, enchi de novo o copo a um terço e fui até à kitchenette, espreitando o Raimundo pelo canto do olho. Mas o grande dissimulado não fez um único movimento. Preparei um sortido de canapés e regressei à sala. Ele continuava sem se mexer. Foi então que o gato, vindo de nenhures, saltou para o tabuleiro (eu achei isso estranho, porque não tenho gato) e derrubou todas as peças.
O Raimundo não se mexeu.
Algum tempo depois, os vizinhos queixaram-se da pestilência e a polícia levou o cadáver retesado do Raimundo, essa velha raposa, para a morgue.
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